Há um mal que assola os restaurantes do Rio de Janeiro:Os garçons que levam o copo embora com o restinho da bebida.
Não é qualquer restinho não. É líquido suficiente para bons instantes de degustação.
Quantidade para arrematar a refeição, a pá de cal sobre a sede.
Em medidas antigas, em que partes do corpo substituíam os centímetros, são três dedos de suco ou refrigerante que deixam de ser consumidos.
Qual a explicação para o fenômeno?
Tenho minhas teorias:
A primeira hipótese é a do "garçom distraído".
No afã de atender várias mesas, é capaz de sequestrar, sem perceber, a última dose de prazer do cliente. Não faz por mal.
Talvez seja este descuido, a falta de más intenções, que irrite mais o freguês. Como pode ser tão desatento com algo tão precioso?
É como cochilar, de pernas pro ar, o segurança que toma conta da Monalisa no museu do Louvre.
A segunda hipótese: "trama maquiavélica".
Funcionários do restaurante, a mando do patrão, ficam à espreita esperando o cliente baixar a guarda. Se vai ao banheiro, se conversa com a namorada, se atende o telefone celular, o garçom dá o bote certo. Ágil, captura o copo e leva embora.
Quando o indivíduo percebe, já era.
É claro, os funcionários estão instruídos a agir naturalmente, como se não tivessem cometido delito algum. Quem vai reclamar de um restinho de bebida no copo? Quem protesta corre o risco de ficar com fama de mesquinho. E, dizem por aí, não é chique fazer questão de beber até o fim.
O motivo da conspiração é vender mais bebidas. Com os preços lá em cima, (já perceberam como a coca-cola, que vale R$ 1,50, custa R$ 3,50 no restaurante?) e os clientes sedentos por seus restinhos, aumentam o consumo de latinhas e o lucro do restaurante.
Terceira possibilidade: presunção.
Ao constatarem o copo esperando pelas interrupções de longas conversas, jogado à própria sorte, os garçons deduzem: "É lógico, o cara não quer mais!"
Trágica suposição. Certos da decisão do freguês, que abandonou o copo que bebeu, vão lá e apoderam-se do recipiente de vidro.
Assim, privam-no do sabor mais gostoso e mais doce. Aquele que você achou que degustaria, mas nunca mais terá a chance de fazê-lo. (Ver o restinho de bebida partir tem um quê de ruptura existencial).
Quarta hipótese: menosprezo.
- "Ah, isso aí é só guaraná misturado com água"; conclui o garçom ao observar aquele gelo derretido que clareia a cor amarelada do refrigerante.
Não é produto nobre. Não é produto digno de ser ingerido. Fosse um combustível de automóveis, seria a gasolina adulterada mais chinfrim que existe do posto furreca da esquina.
Convicto da pobreza de paladar daquela última dose, tchau tchau bebida. O garçom não compreende que aquela sobra era importante EXATAMENTE por estar aguada.
Quando terminamos de comer, doce e salgado, um de cada vez, já duelaram no interior da nossa boca: gole, garfada, gole, garfada, gole, gafada.
Tudo o que se quer, ao fim, é um pouco de PH neutro. Algo insosso, inodoro, quase incolor e que não seja água. Nada melhor, então , do que um gole de suco misturado com bastante degelo.
E é precisamente este tesouro que vemos se afastando na bandeja do garçom, rumo à cozinha.
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Epílogo:
A justiça tarda mas não falha. Hoje eu sofro com meus goles de bebida roubados. Ontem, quando criança, era eu o ladrão de sabores de última hora.
Minha irmã, três anos mais nova, sempre teve o hábito de guardar o pedaço mais gostoso para o fim. Se havia arroz, feijão, couve e carne no prato, ela deixava pequenas delícias de filé mignon para serem comidas por último.
Como um mosqueteiro aplicando um "touchê", espetava-lhe os pedacinhos de filé e levava-os imediatamente à boca, sem dar-lhe chance de reagir.
Tudo o que ela fazia era espernear, protestar, gritar... em vão.
Hoje, a vida dá o troco.
A vingança é um prato que se come frio.
A vingança é, também, um restinho de refrigerante que nunca se bebe.
Caraca, pode levar meu restinho de bebida (que aliás tb fico bem p***), mas não anda distraído no salão! Isso me irrita muuuito! Você fica com o braço levantado 50 minutos esperando, na certeza que todo mundo do salão está te achando otário. Quando alguém olha na sua direção, você é obrigado a fazer uma cara tipo "não dá sabe....esse garçom não dá..", balancando a cabeca com sinal de reprovação.
ResponderExcluirPara mim é que nem motorista de ônibus que não para no ponto. Não quer parar no ponto então muda de profissão. Vai ser motorista de táxi.
Garçom distraido naaaaaaaao!
Bjssss