A frase dita não foi pra mim. Na verdade, eu estava distraído demais do mundo exterior, pensando na correria do meu dia-a-dia. Ainda assim, pesquei a frase no ar e acordei da hipnose.
Deu tempo de olhar pra trás e ver um grupinho de três funcionários, uniformizados com o traje cinza-feio de uma empresa que faz a manutenção dos computadores corporativos.
Naquele momento, o autor da frase esperava enquanto o advertido dava meia-volta e saía do banheiro em que tinha ousado entrar. Seguiram viagem até o sanitário"correto".
O primeiro andar dessa empresa de jornalismo é assim:
no mesmo corredor gelado de paredes cinza e carpete azulado, há três portas de banheiro. Numa delas está escrito 'Apresentadores'.
Ok. Admito que os apresentadores de telejornais precisem, realmente, de um banheiro exclusivo. Podem estar prestes a entrar no ar, estressados. Podem precisar ter certeza de que o toilette está livre, já que não podem perder tempo. No reino dos absurdos, este não é o maior deles.
Na outra porta, está escrito 'Jornalismo'. Aquele é destinado às demais pessoas que trabalham ali: editores, cinegrafistas, produtores, etc.
E na última porta, não há nada escrito além do tradicional bonequinho 'menino' ou 'menina'.
O engano cometido pelo funcionário da firma de computadores, rapidamente corrigido pelo colega, foi entrar no banheiro do jornalismo e não no banheiro dos zé-ninguém.
(zé-ninguém com 'z' minúsculo mesmo)
"Você não pode usar esse banheiro aí não!" .
Ouvi a frase e despertei do meu estado de indiferença (aquele que apresentamos diariamente). Todos vivemos infurnados nos nossos próprios problemas. Olhar para o lado e se preocupar com pessoas desconhecidas só serve quando é pra fazer fofoca.
Mas a frase, dita de forma tão seca e conformada, me fez acordar do estado catatônico, voltado para mim mesmo. Olhei para trás por alguns instantes e não consegui sentir nada, a não ser indignação.
Que cena triste. O funcionário resignado com sua condição de excluído, informando amigavelmente ao outro, distraído, sobre a proibição. Aquele banheiro não era para o bico de nenhum deles.
E não é por falta de espaço. Ambos os banheiros, do 'jornalismo' e dos 'outros', possuem cinco vasos sanitários e quatro pias. Qual é o problema, então?
Por que separar toilettes como se vivessemos num sistema de castas? Qual a mensagem que se quer passar com isso? Seriam por motivos, meramente, de organização? Não consigo imaginar justificativa plausível.
Se eu estiver me sentindo mal e a primeira porta que eu vir pela frente for a dos apresentadores, será que não posso entrar?
Mais do que a proibição em si, me incomoda a passividade das pessoas frente a tamanho absurdo. Muitos nem param pra pensar como aquilo é discriminatório. Como uma simples plaquinha de banheiro pode desqualificar tanto um ser humano.
- Você não é digno o suficiente para fazer suas necessidades aqui! - diz a placa, nas entrelinhas.
E assim o homem se organiza socialmente.
Fazendo diferença até mesmo onde todos são iguais.
É a faceta mais mesquinha da humanidade. Merece ser excretada ralo abaixo, privada adentro. Merece o botão da descarga.
A média de altura, entre os humanos, deve variar entre 1,50m a 1,75m.
Todos temos uma característica comum: vivemos nossas vidas sem olhar pra cima.
Ok, às vezes reparamos na lua cheia ou percebemos que o céu está bonito.
Mas nosso 'default' é mirar sempre reto, em frente. Como se um grande toldo acoplado a nossos crânios nos impedisse de prestar atenção no que paira sobre nossas cabeças.
Para provar minha tese, recorro à seguinte pergunta: Como é o teto do seu lugar de trabalho?
Como é o teto do restaurante que você mais gosta?
E do shopping que você frequenta?
Consegue fechar os olhos e imaginar seus detalhes? Aposto que não.
Já tenho essa teoria faz algum tempo. Toda vez que me lembro dela, olho para cima e percebo como é verdadeira.
No meu trabalho, por exemplo. Consigo descrever, com certa precisão, a disposição dos computadores, as cores das poltronas. Mas só fui perceber o teto outro dia. É escuro, tem algumas partes metálicas, é possível enxergar tubulações de ar condicionado.
Andei perguntando por aí a amigos e queridos. A verdade é que nunca ninguém confirmou minha tese com a veemência que eu gostaria. Para ser sincero, todos mostraram pouco entusiasmo. Concordaram com pouca ênfase. Desconfio que só para me fazer feliz.
Como, admito, sou teimoso pacas, quis trazer a questão para o blog. E talvez, quem sabe, encontrar a mesma indiferença que senti esbarrando por aí.
Basta afastar o queixo do peito o máximo possível para começar a perceber as pequenas manchas que existem lá no alto, as sujeiras, os relevos, as sombras e outras surpresas.
Quero acreditar, inclusive, que no decorrer deste texto, boa parte dos amigos interrompeu a leitura para experimentar este novo mundo.
E nessa aventura de descobertas, me lembro de uma brincadeira que me intrigava muito quando criança. Bem simples.
Apenas um objeto era necessário: espelho.
Instruções: coloque o espelho virado pra cima, na altura do umbigo, e ande pela casa olhando para ele.
Quando a previsibilidade do chão se transformava em teto misterioso, dava medo de dar um passo a mais.
Cada batente da porta, que separa um cômodo do outro, parecia um obstáculo no qual eu estava prestes a tropeçar. Alguns trechos da casa davam a sensação de serem precipícios.
Teto: um limite dentro de casa. Um limite ao ar livre também.
Essa metáfora do desconhecido se estende para outro teto, o mais impossível que conhecemos; o Espaço Sideral!
Como já disse em um post passado, o ser humano foi criado para ficar preso à terra. Só não cria raízes para não ser confundido com plantas. Já que não viemos ao mundo para voar em direção ao céu, por que devemos prestar atenção nele? Nossa vida é aqui. No chão. Olhando pra frente!
E da mesma forma que a humanidade aprendeu que a infinitude do céu é algo inalcançável, aprendeu também a não olhar para os tetos de concreto que conhecemos. Ou que julgamos conhecer.
Será que tem alguém aí que discorda? Que se acha um expert no ponto mais alto dos recintos fechados?
Fique à vontade, pode atirar pedras. Eu as jogarei também. Todo mundo tem teto de vidro.
Gostaria de propor um desafio breve para quem tem um pouco de paciência.
Uma reflexão que está a um clique de distância.
Convido você a olhar agora para o relógio. Pode ser esse aí da tela do computador mesmo. Em geral, fica embaixo, à direita.
Ao clicar no botão 'Play' desse videozinho, em dois minutos você, provavelmente, estará arrepiado.
Minha intenção não é divulgar mais um desses videos manjados da internet. Não quero ser aqueles chatos que dão notícia velha.
É muito provável que você seja uma das 42 milhões de pessoas que já assistiram a esse clipe no Youtube. Se não for, que bom: a experiência vai funcionar melhor em quem sente o impacto pela primeira vez.
Mas quem já viu também pode participar. É comovente mesmo repetido.
Meu propósito não é chocar, não é abalar de graça. Gostaria de refletir sobre quais são os elementos de linguagem que fazem este clipe tão poderoso.
Por força da profissão, vivo me perguntando isso. Quais são as fórmulas para conquistar um telespectador, um público de cinema ou internet, num produto audiovisual?
Como fazer isso jogando limpo, sendo ético e honesto, mas sem abandonar o lado emocionante e sedutor de uma boa história?
Na minha opinião, o trecho abaixo é um bom exemplo. Um bloco de um programa da TV inglesa, um show de calouros daqueles que podem trazer fama (ou ridicularizar) pessoas comuns.
Apresentação feita, convite no ar:
Olhe para o relógio. Clique no Play. Daqui a 2 minutos e meio, a gente conversa de novo.
Não sei o que vocês acharam, mas pra mim, trata-se de um momento arrebatador. Emocionante mesmo.
Claro, há um lado clichê. Há um lado piegas. Mas existem, também, elementos de identificação muito poderosos, com os quais qualquer ser humano se relaciona facilmente.
É um daqueles velhos roteiros que tocam cada um de nós. A história do sujeito fraco e desacreditado que se põe à prova num grande teste, e é capaz de vencer todas as previsões mais pessimistas a seu respeito.
Mas há muito mais que isso.
Vocês perceberam que quase não há descrição?
Há, apenas, 10 segundos de apresentação do personagem. Uma voz em OFF conta que o cara se chama Paul, trabalha numa loja de celulares e que o mundo do Showbizz parece distante para ele. Ponto final!
E isso não quer dizer que o roteirista não conheça sua história completa. Pelo contrário, sabe tudo a respeito do protagonista. Mas escolhe mostrar apenas um trecho da vida dele.
Quando contamos histórias, temos a ilusão de que é preciso expor muitos detalhes, contar fatos minuciosamente.
Um engano. Às vezes, um personagem que se apresenta é muito mais espontâneo, eficiente e carismático.
Pelas palavras e pela linguagem corporal, Paul se revelou. Voz hesitante, um rosto nada popstar, personalidade insegura. Confessou ter o desejo incontrolável de ser cantor, mas temia um obstáculo quase intransponível: pouquíssima autoconfiança.
Pronto! Com 36 segundos de clipe, já conhecemos o personagem e seu conflito. Já sabemos que está diante de um grande desafio. O close nas expressões faciais dos jurados denunciam o menosprezo deles. Estava criado o cenário para um grande fiasco.
E tudo isso, lembro mais uma vez, sem precisar de descrição. Apenas depoimentos sinceros de Paul; uma boa edição de imagens, colando, em sequência, os olhares cheios de desdém dos jurados com o rosto apreensivo do calouro. Edição que cria tensão.
E trilha musical! Se bem escolhida, a canção deixa de ser pano de fundo para dar força à história contada. A musiquinha do início caiu bem.
Aí, Paul abre a boca para cantar...
Mas antes, outro recurso importantíssimo: Pausa. Silêncio. Suspense!
Ele pede, com um inclinar de cabeça, para que a produtora aperte o play na música de fundo. Enquanto isso, mais olhares de desprezo dos jurados. As pausas, nestes tipos de edição, são fundamentais para antecipar o clímax.
E aí, o ápice! Contra aparências e preconceitos, Paul choca todos os presentes com uma voz possante e surpreendente. Canta com vigor emocionante!
Aos poucos, todos aplaudem. Closes nos rostos revelam o espanto de cada um.
No fim, o "clímax do clímax". Paul atinge um agudo tão sublime que tem a força física de fazer as pessoas se levantarem. Todos, de pé, aplaudem! Os jurados se rendem.
A canção de Paul é o principal elemento que faz aflorar as sensibilidades. A música bem usada faz brotar arrepios.
Os aplausos e assovios do público presente são mais um ingrediente dessa química. A experiência coletiva de se emocionar, a catarse conhecida desde o teatro da Grécia Antiga, também fazem este vídeo funcionar tão bem!
Num piscar de olhos, 2 minutos e meio se passaram. Em 2:30, já nos envolvemos com uma história que tem início, meio e fim. Tão pouco tempo, mas tantos recursos para fazer a mensagem viajar com tamanha eficiência.
Contar histórias é fascinante. Seduz o homem desde os primórdios. Quando a humanidade não sabia escrever, a palavra oral era sagrada. Ninguém podia mentir, sob o risco de colocar toda a história e a cultura de um povo, passados de geração em geração, em risco.
Desde sempre, o homem gosta de narrar acontecimentos. Para fazê-lo com perfeição, não basta ter um bom personagem e um bom conflito. As "peças" complementares podem fazer toda a diferença.
Luzinhas de garagem quando um carro está prestes a sair
Buzinas de carro.
Bip-bip de Nextel.
Apito de guarda municipal
Microondas quando a comida está pronta.
Sirene de polícia ou de ambulância.
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Obedecemos sinais.
Através de um sons bruscos, agudos, longos, incômodos.
Os ruídos que nos chamam à atencão, no dia-a-dia, são golpes de desprazer auditivo.
Será que nunca pensaram em fazer um microondas com aquela voz doce de locutora de aeroporto, que dissesse "Ouçam todos! A comida está pronta"?
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Ou luzinhas de garagem que tocassem música divertida para avisar que vem um bólido saindo: "Meu carro é vermelho! Não uso espelho pra me pentear!"
Ou sirenes que pedissem, gentilmente"Amigos, com licença, emergência! temos que passar!"
Por que os sinais sonoros de alerta urbano são tão inimigos dos ouvidos?
Pense bem.
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Se temos certeza de que o homem é o unico ser capaz de processar informações verbais e compreender palavras à perfeição, por que utilizamos ruídos que poderiam chamar atençao de qualquer animal irracional?
No papel, a humanidade planeja uma ordem urbana civilizada, evoluída, com regras por escrito.
Na prática, os homens se adestram como cães.
Com barulhos imperativos e alertas estridentes.
A prova sonora de como o ser humano sabe que não evoluiu tanto quanto faz parecer.
- Senta! Deita! Pega a bolinha! Pega a comida no microondas! Olha o carro saindo! Abra espaço para a ambulância! Olha o celular tocando!
A viagem do homem ao espaço não recebeu um mísero voto do total de 22 da nossa enquete!
O planeta Terra é chamado de mãe, que abriga com carinho todos os seres vivos.
Mas também pode ser visto como uma prisão. O ser humano não foi programado para existir em lugar algum fora do Globo Terrestre! Quando olhavam para a lua e para as estrelas, os homens pré-históricos urravam de admiração, mas certamente nunca imaginariam ser capazes de, um dia, viajar para bem perto delas.
Pois o homo-sapiens conseguiu. Lançou foguetes, ônibus espaciais tripulados. Viu a Terra de longe, descobriu que ela era azul. Vestiu jaquetas brancas especiais e capacetes, encarou o altíssimo risco de morte para embarcar num veículo espacial... e superou, talvez, o maior dos limites impostos à humanidade: a maldição (ou benção) de viver presa, eternamente, ao Planeta.
Que ironia. Tanto esforço e nem os próprios humanos reconhecem nesta façanha o maior dos seus espelhos. Nem a mais hercúlea das proezas fez com que os eleitores do blog (eu incluso) a escolhessem como a mais reveladora da nossa raça!
Como somos contraditórios, paradoxais, nós, os humanos! Mesmo sendo capazes de flutuar entre as estrelas, nós nos enxergamos, de fato, em criações bem mais mundanas!
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A capacidade de se autodestruir foi escolhida por 5 de 22 votantes como a mais característica da raça humana, simbolizada pela bomba atômica.
A 9a Sinfonia de Beethoven teve um votinho a mais. 6 em 22 elegeram a obra musical. Talvez, chancelando o fato de o homem ser o único ser artístico entre todos os habitantes da Terra.
Mas numa votação apertada, a internet foi eleita como a criação que melhor representa o ser humano. 7 pessoas visitaram o blog e clicaram na opção.
Coincidência ou não, a internet é a mais recente de todas as invenções que estavam no cardápio. Seria um indício de que nós, humanos, tendemos a valorizar mais o que está na ponta da tecnologia? Será que, daqui a 100 anos, votaríamos em algo que tivesse sido recém-inventado?
Será que, no fundo, somos seres tecnológicos, acima de todas as outras características?
Muito obrigado a todos que participaram e se divertiram com mais essa enquete! Obrigado pelos cliques e pelos comentários também. Valeu, também, Valmir e Remi, que estenderam a discussão para seus blogs!
Reproduzo, abaixo, o que já tinha escrito em um dos comentários. Conto qual foi meu voto e a justificativa. Abração a todos!
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A verdade é que, em cada uma dessas invenções, está um pouco da essência da humanidade.
Porém, meu voto foi para a Nona Sinfonia de Beethoven: Acima de todas as capacidades do homem, me arrebata perceber que o ser humano é um ser artístico.
Capaz de produzir obras musicais, gráficas ou literárias, que não têm impacto algum no meio-ambiente. Na prática, nem precisavam existir!
Não cruzam a estratosfera terrestre como os foguetes, não invadem terra adentro como a muralha, não são tecnológicas como a internet e não destróem como a bomba atômica!
Porém, obras artísticas só existem, exatamente, por terem um alvo apenas : O ser humano. E nele, provocam imenso impacto.
Na minha opinião, nada mais humano que a Arte. E poucas obras de arte são tão poderosas como a Nona de Beethoven.
"Canhoto gosta do mouse do lado esquerdo! É tão difícil entender isso???"
Um grito sem voz nascia das entranhas de Carlos e morria na garganta, bem antes de se propagar. Claro, não pegaria nada bem sair berrando no ambiente de trabalho. Mas que dava vontade, dava!
Toda vez que o jornalista chegava para trabalhar, encontrava o mouse do lado direito. Dava início, então, a um ritual diário, que já durava uns dois meses.
Puxava a cadeira com rodinhas na sua direção, sentava-se confortavelmente. Passava o mousepad para o lado esquerdo e trazia o mouse na sequência. Puxava o monitor do computador para frente e colocava o bonequinho que enfeitava a escrivaninha um pouco atrás da tela do PC. A ordem daquelas etapas nunca era quebrada, como se existisse um manual passo-a-passo.
A primeira vez que realizou a sequência de movimentos, não deu a devida importância. Mexeu na configuração da mesa com a inocência de uma criança que brinca na areia. Mas não demorou muito para a sucessão de gestos ganhar contornos de uma guerra silenciosa.
Naquele mesmo computador trabalhava outra pessoa, mas no turno da noite. A cada manhã, Carlos percebia que a disposição dos objetos tinha sido modificada. Sempre à mesma maneira: mouse do lado direito, mousepad idem. O monitor do PC um pouco mais pra trás e o bonequinho colocado, cuidadosamente, à frente da tela, bem perto do usuário.
Ele não deixava barato. As preliminares do trabalho, religiosamente, seguiam aquela liturgia: toda manhã, antes de qualquer ação, os objetos dançavam conforme seu próprio gosto.
O jogo se prolongou durante muito tempo. Como um tabuleiro de xadrez que só tem duas casas. Um jogador arrastava a peça pra lá, o outro a trazia pra cá.
Depois de alguns meses, não era mais possível desisitir. Se abrisse mão de um de seus movimentos, seria interpretado como um fracassado pelo funcionário da noite. Ele não estava disposto a isso. Não queria dar a entender que não era senhor daquele espaço. Pagava pra ver a hora em que o rival da noite iria desistir.
Carlos conjecturava. Quem seria o competidor? Seu palpite era de que tratava-se de uma mulher. Aquele bonequinho, imaginava ele, pertencia a um dos filhos pequenos dela. Na lata de lixo que amanhecia aos pés da cadeira, sempre havia lenços de papel dobrados e embalagens de chiclete. Homem não dobra lenço, homem amassa! E esse chiclete aí de melancia tem a maior cara de ser coisa de menina. Mas que tormento! Tudo não passava de especulação.
Um dia, ficou trabalhando até mais tarde. Mas não tarde o suficiente para encontrar-se com a adversária, pensou ele. A cada minuto, na verdade, Carlos ficava angustiado. Queria acabar logo e ir embora. Por algum motivo, não queria descobrir a identidade secreta da rival. Tímido, não suportaria o constrangimento. - Mas que besteira!, imaginava, para se convencer de que estava transformando aquilo num bicho de sete cabeças.
Por via das dúvidas, desligou o computador sem acabar de fazer o que tinha que fazer. Levantou rapidamente e foi saindo da redação. Cruzou com uma mulher de uns 30 anos, morena e magra. Nunca a tinha visto antes. Será que era ela? Cumprimentou-a com educação e continuou andando. Não olhou para trás.
Uma manhã, percebeu algo estranhíssimo conforme se aproximava do computador. O mouse continuava do lado esquerdo! O que teria acontecido? Seria a rendição confessa de sua inimiga? Naquele dia, foi até difícil abrir os trabalhos. Não havia o que arrumar na mesa. Era como se algo estivesse fora do lugar, como se tivesse sumido parte importante da sua rotina.
Dia após dia, o mouse continuou dormindo do lado esquerdo. Mas na sexta-feira da segunda semana, Carlos se tranquilizou. - É lógico! Ela entrou de férias!!!
Ufa. Um alívio! Contou mais 15 dias e pronto. Lá estava o mouse do lado direito novamente. O desafio havia recomeçado.
Cinco semanas depois, Carlos recebeu a melhor notícia da sua vida profissional. Seria promovido! Virou chefe! Não mais trabalharia ali!
Almoço com os amigos, tapinhas nas costas, champagne, jantar caro com a esposa, muita comemoração. E o melhor. Teria uma sala e um computador só para ele!
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Antes de deixar aquela escrivaninha pela última vez, desligou o monitor devagar. Esperou calmamente até que o computador apagasse. Afastou a cadeira para trás, levantou-se. Deu uma leve ajeitada no mouse que já estava à esquerda, seu lado favorito.
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Botou a mochila nas costas e hesitou um pouco antes de sair. Sabia que, após o movimento noturno, nunca mais teria direito à réplica. Baixou a cabeça e admitiu, baixinho:
Pessoas no fim da vida, que por uma razão ou por outra foram relegadas à reclusão.
Há quem cuide deles, é verdade. Mas há carinho?
Alguns, doentes, já saíram do ar. Não participam mais disso que chamamos de realidade.
Outros, lúcidos, estão lá por outros motivos. São um peso para a família. Não têm mais condições físicas para viver sem assistência. Não têm entes queridos. São sozinhos.
Na época de escola, fizemos uma excursão a uma casa de idosos. Levamos lembrancinhas, presentinhos baratinhos mesmo. Mas nossa passagem por lá teve uma importância inestimável. Jóias e ouro não valeriam tanto quanto nossas horas de carinho dedicadas a eles naquela tarde.
Em comum, os idosos têm, todos, um ar inocente. Não importa o que tenham feito durante a vida. Na flacidez dos corpos e nos cabelos brancos está uma ingenuidade só percebida em crianças. Incapazes, mesmo que quisessem, de fazer mal a alguém.
Foi aí que um filho da puta, armado com pistolas e um fuzil, meteu o pé na porta e abriu fogo.
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EUA, uma cidadezinha na Carolina do Norte, dia 29 de março de 2009.
Robert Stewart, de 45 anos, fuzilou doze pessoas numa clínica para idosos. 7 pacientes e um funcionário morreram. Quatro continuavam feridos no hospital. Os velhinhos tinham entre 78 e 98 anos. Ao contrário dos outros crimes covardes ocorridos nos EUA, Robert não se suicidou. Trocou tiros com a polícia, ficou ferido e foi preso.
Fazer esta pergunta é tão óbvio quanto recorrente, cada vez que acontece uma tragédia dessas: o que leva uma pessoa a tamanha crueldade?
Como nenhuma justificativa explicaria algo tão escabroso, talvez interpretar o ato em si nos dê mais pistas sobre os motivos psicológicos do assassino.
Metralhar uma escola de crianças ou uma casa de velhinhos é um símbolo de poder absoluto. Não há a mínima chance de reação. É um cabo de guerra injusto, onde só um dos lados pode vencer.
Além de tudo, é um crime sem honra. Não há mérito algum em tamanha carnificina. Bem diferente, por exemplo, dos duelos dos filmes de Bang Bang, onde cada rival tinha 50% de chance de vencer.
Por que esse tipo de homicídio é tão comum em países ricos? O que seduz tanto em chacinar pessoas indefesas e sem propósito claro?
Não tenho a pretensão de elucidar o mistério, mas podemos riscar a superfície.
Na cultura dos "vencedores", quem não vence não é nada.
Não há indivíduos com defeitos e virtudes. Só existem olhos para os tais 'Vencedores', cujas imperfeições ficam mascaradas por trás das glórias.
E há os que não conseguem alcançar os padrões de "vitória" concebidos pela sociedade.
Aos vencedores, é dado o direito de tripudiar dos perdedores. Por que será que as escolas americanas têm a cultura do "bullying" tão forte? (os mais fortes abusando dos mais fracos).
Em meio aos poucos 'winners' estão os muitos 'losers'.
Para a mistura que acaba em tragédia, faltam alguns ingredientes. A população da maior parte dos EUA (excluindo algumas metrópoles) é autocentrada e orgulhosa da própria ignorância. Não conhecem o mundo, não têm cultura geral, e se bastam no único estilo de vida que conhecem, o 'american way of life' medíocre e angustiante.
O americano médio se afirma tanto na própria cultura que acaba se afogando nas águas rasas e toscas da própria vida. Chega uma hora que não aguenta mais um horizonte tão manjado, um cotidiano tão atormentado e previsível.
Junte-se a isso uma incrível facilidade para adquirir armas. Um povo que se orgulha delas, que atravessou os séculos guerreando. O assassino dos idosos, aliás, era um caçador de veados. E, pasmem, uma das propostas levantadas para solucionar incidentes como este foi armar os enfermeiros!
Ignorância, frustração e pólvora se transformam em crimes inexplicáveis.
Há séculos, os EUA incutem em seu povo que o estilo de vida americano beira à perfeição. Os ideais fundadores da pátria são perfeitos. O sistema de governo democrático é perfeito. Os ideais puritanos que construíram a nação são perfeitos.
Fico imaginando como é a sensação quando cai a ficha. Quando o americano médio percebe que, ao contrário de tudo o que sempre aprendeu, sua vida não é perfeita. Pelo contrário, o vício de mergulhar no próprio umbigo é profundamente frustrante e alienador.
Talvez venha daí este ímpeto diabólico de sair atirando em velhinhos.
Qual o sabor de disparar contra uma senhora de 90 anos numa cadeira de rodas?
Seria um ato simbólico, de matar tudo o que fosse caquético e ultrapassado como a sua própria cultura?
Seria o gesto derradeiro de um perdedor, sujeito imperceptível aos olhos de todos, mas que acabara de se tornar visível?
Seria o último sintoma de uma doença cultural que inventa ideais? Quando o cara descobre que verdades são ilusões, tudo se transforma num vazio tão grande que até o gesto mais perverso não tem gravidade ou sentido.
Os americanos deveriam abandonar a idéia de armar as possíveis vítimas, como inspetores de colégio, enfermeiros e garçons de lanchonete. E atacar o problema real: desarmar a própria arrogância.
A ilusão da perfeição esconde podres, e é muito mais perigosa do que admitir as próprias falhas e reconhecer que há muito que evoluir.