quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O jogo do ano - 2011



http://www.youtube.com/watch?v=hKUsvP-XvRw



Memórias.
Algumas emoções que senti na vida eu gostaria de nunca esquecer.
A primeira vez que andei na montanha-russa, o primeiro beijo, o nascimento da minha filha.
E aquele jogo... ah, aquele jogo da última quarta-feira.


Quem inventou a fórmula do futebol, por favor, responda: faltou algum ingrediente naquela partida?
Dor, finta, grito, gol, supresa, sentimento, constrangimento.

Vamos criar um sinômino para driblar?
N e y m a r.
Nome que parece verbo.
Quem consegue Neymar mais... que Neymar?

E assim, de uma finta do menino, bola pra Elano... bola pra Borges.
Um a zero... que logo virou dois.

Quem pode dar passe de bicicleta para outro gol de Borges?
Neymar pode.
Dois a zero que logo viraram três.

Quem consegue Neymar no meio de campo?
Arrancar, tabelar?
Quem pode Neymar o Ronaldo Angelim, numa finta inexplicável?
Difícil descrever. Difícil entender.
Santos três a zero. Não tinha nem trinta minutos de jogo.

Quantos rubro-negros não desligaram a TV?
E os demais torcedores, quantos não ligaram pros amigos, boquiabertos?


O mais plausível? Àquela altura, uma goleada do santos.
Mas, naquela noite, o previsível não foi ao jogo.
Outro "ível" apareceu. O incrível.

Incrível gol perdido.
Incrível reação do Flamengo.
Incrível falha do goleiro Rafael. Incrivelmente fácil para Ronaldinho Gaúcho.
Ível... o Flamengo lutava para continuar invencível.

Mais Flamengo??
Thiago Neves.
Mais Neymar?
O moleque brincava entre os grandes. Brincava de fintar, de correr... de Neymar.

Willians é que não soube brincar.
Elano não soube aproveitar.
Elano não sabia... que a cobrança, tão fraquinha... ia incendiar... o Fla!

Deivid, casquinha na bola! Três a três! Dá pra acreditar?
É futebol? É sim senhor!
Futebol brasileiro! E faltava o segundo tempo inteiro.

Neymar. De novo Neymar.
De novo... e de novo. Quantas vezes Neymar?
Quantos lances de gênio antes de o jogo acabar?
Quatro a três. Quantos mais seriam. Cinco, seis?

Mas espera um pouquinho, Neymar... pra outro gênio passar.
Passa Ronaldinho, dribla Ronaldinho, derrubado Ronaldinho.
É... Ronaldinho também sabe Neymar. Ou foi o Neymar que aprendeu a Ronaldinhar?

Doze anos mais velho que Neymar. Não tão rápido, não tão ágil quanto antes.

Tão gênio quanto um gênio pode ser.
Flamengo cinco, Santos quatro.

Torcedores, um brinde!
Um gole de talento, uma homenagem ao futebol, um privilégio ter Neymar e Ronaldinho no mesmo gramado. Um gramado brasileiro.

Espetáculo! De dois dos maiores clubes do mundo no país da Copa.

Escrevendo, se errei, posso apagar.
Na Vila Belmiro, apagar... é verbo impossível de conjugar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Antonio, o homem que venceu o câncer


Amigos, ele partiu.
Nós, um dia, também partiremos.
Mas me dá muito orgulho dizer:
Antes de partir, Antonio venceu.

Na última vez que o encontrei, na cama de hospital, não enxerguei a doença que derrota o paciente.
Vi, sim, um Antonio soberano.

Menosprezava a dor.
Não dava importância ao corpo debilitado.
Brincava com a enfermeira, com o catéter,
fazia piadas com o soro e com sua dose diária de plaquetas.
E ria, ria muito.
Ria não. Mais ou menos.
Sarcástico, Antonio é dos poucos que conseguem fazer rir mantendo a expressão séria.


Antonio Leveza.
No seu Ipad, fotos dos bebês dos amigos, de desenhos e mensagens de filhos de pessoas queridas, que lhe desejavam força.

Antonio Coragem.
Uma convicção inabalável, uma determinação obstinada pela cura.


Um estado de espírito contagiante e improvável, que me arrebatou feito avalanche.

O que quer o câncer, amigos, senão cultivar a dúvida, o medo, o desespero?
O que quer o câncer, senão nocautear o paciente com a simples notícia de sua presença?
O que querem as células malignas, senão fazer com que o corpo se volte contra o próprio corpo, que a mente antagonize a própria mente, o espírito ataque o próprio espírito?

Pra cima do Tuninho, não.
Tuninho nunca permitiu.

Suas palhaçadas eram mais fortes. Com um jeito irônico, enfrentava o câncer com autoridade.
Cheio de amor, fazia esperança exalar como perfume naquele quarto.

Antonio Fortaleza.
Cabeça em pé feito um Beckenbauer da vida, fez seu tumor acreditar que era apenas uma gripe.


Antonio, amado amigo, sinto um orgulho enorme.
Não foi apenas um câncer que você derrotou.

Essa palavra medonha, símbolo dos cantos escuros que a vida nos reserva.

Já te vi vencer cânceres de vários tipos:

O câncer da indiferença.
Sempre o mais solidário, sempre corria para acudir quem precisava.
Doava sangue aos doentes, o ombro amigo aos carentes, a alma a quem pedisse.

O câncer da apatia.
A inquietação no trabalho, a criatividade no Globo Esporte fez toda essa garotada queimar a mufa para fazer um programa cada dia melhor.
Eu, inclusive, aprendi muito contigo.

O câncer do stress.
Nos dias mais duros e tensos na Globo, você fazia graça dos momentos de pressão.
Sempre tentei decifrar, sem sucesso, seu segredo para manter a cuca fresca.

O câncer da tristeza.
Quando sua mãe partiu, sua força transbordou para manter sua família unida e de pé.

O câncer do mau humor.
Ah, esse nunca teve vez contigo. Dono das tiradas mais rápidas do oeste, não hesitava em disparar suas gracinhas.
Depois era só ajeitar a aba do chapéu e soprar o cano fumegante.

E, finalmente, o câncer da solidão.
Seu jeito debochado e fanfarrão destruía os cadeados do coração.
Era impossível não se tornar amigo de Antonio Souzadias.

Souzadias mesmo. Escrito tudo junto.
Um toque de personalidade desse cara que não se preocupava muito com o que os outros pensavam.
Pendurava chapas de raio-x do próprio joelho nas paredes de casa.
Deixava o rosto do Cid Moreira em pause no telão da sala em dias de festa.
Estava a fim era de se divertir, rir à toa, das coisas banais.
Mesmo de algo tão trivial quanto juntar as letrinhas do sobrenome.

Tonhão.
Nas peladas, um beque de respeito.
Nos últimos dias, celebrava os momentos em que tinha "defesa".
Aquilo representava algumas horas de corpo são para curtir a vida, ir ao Teatro e comer no japonês.

Tonhão,
você É a defesa!
Um zagueiro intransponível, que nunca deixou o tumor te driblar.

Desenganados estávamos nós.
Você brincava e fazia piadas.
Confiava e seguia em frente.

Meu querido amigo,
de coração apertado e lágrimas caindo, te digo:
aprendi contigo mais uma vez!

No teu lugar, eu já estaria combalido desde o início,
minha personalidade e minha confiança esmagadas,
assoladas pelo tumor como terra arrasada.

Você nunca entregou os pontos, nunca parou de acreditar.
E assim, viveu na plenitude.
Espalhou força e esperança entre teus queridos.

Meu amigo, um exemplo.
Me ensinou como é que se luta.
Me fez olhar para minha mulher e minha filha,
no silêncio da madrugada,
e me fez ter coragem.

Me fez prometer nunca esmorecer.
Não importa a dor, a doença, o percalço.

Antonio Pureza,
já tendo partido, nos deixou um sorriso.
Um sorriso que nos conforta e diz:
"Fiquem tranquilos, amigos.
Eu venci."

segunda-feira, 11 de abril de 2011

MEGA


Eu era o quinto da fila.

E, você sabe, quem está na fila, está esperando.

E eu esperava. Minha vez chegaria logo.

Mas deu tempo de pensar no que tinha acontecido 15 minutos antes.

Deu tempo de filosofar sobre a seguinte contradição:

Duvido do que é real. E acredito no que é sobrenatural.

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Meu pai sempre disse.

"Filho, se o dinheiro vem fácil demais, desconfie! Você deve trabalhar e conquistá-lo com muito suor!"

Sem perceber, levei isso como um lema durante a vida.
Sem me dar conta, acabei nunca participando de jogos de azar, bingos, rifas.

Até carteado, raramente joguei. Pra falar a verdade, nunca teve baralho na casa do meu pai.

Na minha pureza infantil, enxergava naqueles valetes e damas apenas um passatempo lúdico.
Me intrigava como losangos, corações e florzinhas ganhavam nomes pomposos como paus, espadas, copas e ouros. Achava aquilo o máximo.
Achava aquela dança das cartas esteticamente instigante, com um quê de misterioso.

Mas nem carteado meu pai permitia em casa. Afinal, muita gente apostava dinheiro em jogatinas. E apostar, lá em casa, era carta fora do baralho.

Além da aversão ao jogo, outro traço da minha personalidade sempre foi o de confiar na intuição.

Às vezes, na vida, é preciso deixar a lógica descansando ali no canto e dar ouvidos apenas ao "feeling".

Foi assim que resolvi seguir adiante na transferência de curso de Desenho Industrial para Jornalismo, mesmo quando a PUC indicava que havia ZERO VAGA e ZERO CHANCE. Consegui a transferência.

Foi assim que segui o conselho de um colega de faculdade, que me estimulou a fazer a prova para o estágio da TV Globo quando eu ainda nem pensava seriamente em estágio. Trabalho lá até hoje.

Não, não gosto de apostar. E sim, confio nos meus pressentimentos.

Mas nunca pensei que essas duas facetas estariam prestes a colidir. Nunca pensei... até quinze minutos antes de estar naquela fila.

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Lá vinha aquele velhinho, caminhando pela calçada.
O mesmo velhinho que havia aparecido, como um anjo, evitando uma briga na lanchonete uns meses atrás.

No balcão da lanchonete, estavam eu, a Luciana e a cachorra Lara, quando um mal-humorado agressivo começou a xingar, dizendo que não entraria na lanchonete enquanto a cachorra estivesse por ali. Achei a reação exagerada e comprei a briga. Foi quando o velhinho anjinho chegou pacificando, dizendo que a cachorrinha era dócil e meiga, fazendo carinhos e elogios.

Que timing daquele senhorzinho! Certamente, não veio do nada!! Tenho que respeitar seu caráter paranormal, pensei!

E, como eu dizia, meses depois, lá vinha aquele velhinho, caminhando pela calçada.

Me deu boa tarde e, do nada, disse assim: "Já jogou na Mega Sena, meu filho? Tá valendo 33 milhões. Joga dois reais!"

Deu o recado e foi embora.
Eu que não sou bobo, entendi o aviso. Senti aquele feeling. Caceta, vou jogar na Mega Sena! Será que vou ficar rico?

Caramba, mas eu nunca jogo!!! Não confio em dinheiro que vem fácil!!!

Mas esse pedido do além eu não podia recusar. Como conviver com um remorso desses? Como recusar essa dica aleatória e sem propósito? Como não mergulhar nesse mistério e nunca saber o que o destino me reservaria se eu tivesse jogado 2 reais naquela Mega sena??

Na queda de braço entre minha repugnância pelo jogo e minha atração pelo paranormal, lá estava eu na fila.

Na fila da Mega Sena.

Pra fazer a minha fézinha.
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Epílogo:

O sorteio correu no sábado, às 22h.

Como nunca tinha feito antes, e como nunca mais farei, acompanhei a retirada das bolinhas online, realtime...

... Das seis dezenas, acertei um número.

O número 60.

O último!

Não fiquei rico... mas será que isso quer dizer alguma coisa?

Se eu descobrir, eu conto pra vocês.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Estampidos na sala de aula


Alguns ciclos são inexplicáveis e surpreendentes.

Há dois anos, 24 meses atrás, no mês de abril de 2009, escrevi sobre um massacre de velhinhos indefesos por um atirador maluco nos Estados Unidos.

Naquela ocasião, possuído pela força incontrolável que move as pessoas em busca de sentido após uma tragédia tão sem propósito, apontei o dedo para algumas características da sociedade americana como responsáveis pela chacina.

O mundo gira. E girou certinho dessa vez.

360 graus depois, caímos no mesmo mês de abril, desta vez de 2011.

E tenho que reavaliar o texto que escrevi em 2009.

Acabamos de importar um tipo de crime que era comum apenas nos países de primeiro mundo.

Nós já tínhamos o tráfico de drogas, o tráfico de armas, roubos e assassinatos relacionados à pobreza e à má distribuição de renda. Mas podíamos nos vangloriar de não possuir psicopatas atirando a esmo em escolas, asilos e lanchonetes.

Infelizmente, isso acabou.

Wellington Menezes invadiu uma escola em Realengo, no Rio, e disparou contra cabeças de adolescentes.

A equação matemática acaba de ultrapassar fronteiras.

Fácil acesso a armas + tristeza e solidão + um passado de abusos + psicopatia (pode ser) = massacre de inocentes.

Compreendo que a imprensa esteja cobrindo o caso com profundidade e uma curiosidade quase mórbida. O crime gerou uma comoção social muito grande e deixou todo mundo perplexo.

Desvendar e destrinchar essa carnificina faz mal à saúde e ao espírito, nos deixa pesados e tristes... Mas traz uma ilusão, certamente falsa mas consoladora, de que vamos encontrar alguma lógica por trás de tanto sangue e pólvora.

O que me preocupa é pensar que podem haver outros doentes solitários vendo TV e lendo jornais. Pessoas de corpo presente no nosso cotidiano, que esbarram nos nossos ombros nas calçadas lotadas, mas muito amarguradas e distantes das nossas regras sociais.

Loucos que ficam cada vez mais loucos com a realidade cruel desta sociedade injusta, que pesa muito forte sobre as costas daqueles que não conseguem ver beleza na vida.

Que esses psicopatas sentados nos sofás não se inspirem pela ampla divulgação do massacre de Realengo.

Que não enxerguem naquela cobertura avassaladora dos fatos uma oportunidade de existir, de se sentir relevantes numa sociedade que os exclui.

Que não queiram repetir o feito repugnante e animalesco de Wellington Menezes.

Colégios e escolas: que os professores fiquem atentos aos casos de bullying entre quatro paredes, no meio de carteiras e quadros-negros.

A omissão das autoridades escolares, se não cria psicopatas, pode acarretar muito sofrimento e traumas para alunos indefesos.

Que os fracos sejam protegidos hoje.
Para nunca pensarem que, amanhã, serão mais fortes por portarem armas.
Para que não repitam anos depois, de forma mais cruel e sangrenta, a rotina de massacrar pessoas inocentes.

Que o abuso e a coação de um estudante, de forma lenta e covarde pelas mãos de outro mais forte, nunca mais se transforme no extermínio de dezenas de inocentes.

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para ver o que escrevi em 2009:

sexta-feira, 25 de março de 2011

Grifos e Lara

Da planta do pé até um pouco acima do tornozelo.

Isto é quanto mede, em média, uma calopsita adulta, pássaro originário da Austrália, da ordem dos Psitaciformes.

Duas calopsitas, uma em cima da outra.

Isso é quanto mede a boca aberta de uma pitbull.

Grifos e Lara.
Calopsita e pitbull.

Grifos pensa que é gigante. Tem marra e topete. E a nítida impressão de que é dono da casa e que todos à volta são serviçais. Quando falta água ou comida, não importa a que hora da manhã, enche os pulmões e emite um piado insuportável.

Lara nunca percebeu a força que tem. E nunca se deu conta do esteriótipo violento que rege sua natureza.

Grifos e Lara.
Convivem em paz, soltos pela casa.

Grifos não desconfia que correria perigo se Lara tivesse ciência do poder de sua mandíbula.

Mesmo provocada, apertada, instigada, amassada com carinhos humanos inconvenientes, Lara nunca cogitou atacar ninguém. Nunca teve o ímpeto de experimentar o peso de sua mordida que, dizem, equivale a 200 quilos e não solta jamais.

Grifos desfila pela casa, pia alto quando quer, não obedece os humanos e ignora carinhos. Transita por onde bem entende e não dá satisfações.

Lara é submissa. Se faz besteira, ouve bronca, e põe o rabo entre as pernas.

Ah, mas há momentos de tensão. Instantes em que a platéia pode jurar que uma tragédia está prestes a acontecer.

Às vezes, Grifos cisma, encasqueta.
Teima em cantar uma musiquinha estridente. Não, nada parecido com a meiga melodia de um pássaro. Imagine algo como a sirene ininterrupta de uma ambulância. Sim, aquela criaturinha de 15 cm consegue atingir incômodos 140 decibéis.

Lara sofre. Quase agoniza. Ouvido de cachorro é assim. Ouve frequências agudas que os humanos não captam. Imagina, então, o piar perseverante e irritante que os humanos captam. Tortura para tímpanos caninos.

Grifos pia. Lara o encara. Grifos continua. Lara padece. Grifos não pára. Lara não aguenta mais.
Lara poderia atacar. Mas sabe o que Lara faz?

Uiva. Implora.
Uiva um uivado alto, pedindo clemência, solicitando, em nome de Deus, que Grifos cesse aquela agruga.

E sabe o que Grifos faz?
Simplesmente pára.
Não por ter medo da enorme pitbull.
Pára porque se deu por satisfeito.
No seu íntimo minúsculo reside a satisfação de saber que tem muito poder.

Antes de ir dormir e desligar o computador, por acaso, olhei para a almofadinha que eles dividem à noite.

Os dois, nariz com nariz, bico com focinho.
Lara abre a bocarra.
Grifos não se intimida e, ameaçador, abre também.

Eu nem me meto.
É briga de cachorro grande.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Foto-verso

11 de setembro

dia e mês que não precisam de ano

Quais datas você conhece têm vida própria?

Não necessitam referência,

de folhinha de calendário?

11

dois algarismos,

lado a lado,

ruíram no impacto dos aviões

Muitos setembros depois

ainda constróem ali.

E o dia onze se basta.

Não precisa de explicação.

Não tem explicação.

domingo, 13 de março de 2011

Bom filme!


"Desligue o telefone celular. Em caso de emergência, siga as orientações da nossa brigada de incêndio. Desejamos a você um bom filme".

Quem nunca ouviu essa ladainha no cinema antes dos trailers?
Na verdade, isso nunca me incomodou.
O texto é sempre o mesmo, é fato.
Mas o mundo é cheio de clichês e existem situações em que ninguém tenta ser original.

Todo cinema pede para você desligar o celular. Isso é até bom.

Todo cinema fala das "brigadas de incêndio" que estão aí para ajudar. (Gostaria muito de presenciar este ser fictício em ação. O nome é superpomposo, mas será que as brigadas existem mesmo?)

O que me incomoda é o tal "Bom filme".

- Um bom filme pra você!

Pessoal, ou o filme é bom ou não é bom. E ponto.

Votos de "bom filme" não vão mudar nada!

Desejar "um bom filme" para os infelizes espectadores que acabaram de pagar ingresso para ver Anaconda não vai transformá-lo num concorrente ao Oscar.

Desejar um "bom filme" é hipócrita. E me irrita.

Votos assim devem ser feitos apenas para experiências, nunca para substantivos concretos.

Geralmente, as palavras "bom" e "boa" acompanham substantivos abstratos que serão fruídos pelos ouvintes.

Exemplos:

"Boa viagem!".
Ok, aceito seu voto. Espero gozar com conforto do trajeto Rio-São Paulo. E espero que o avião não caia.

"Bom trabalho!".
Claro, muito obrigado! Espero que meu dia de ralação seja menos estressante que outros que já passaram.

"Bom apetite!".
Obrigado, monsieur. Não vejo a hora de viver a experiência de degustar os deliciosos pratos de vossa excelência, o Chef!

... mas "Bom filme!".
"Bom filme" não!

Sugiro que o cinema passe a dizer o seguinte:

"Desliguem seus celurares, obedeçam à brigada de incêndio em caso de tragédia. Ah, e by the way, o filme que vocês vão ver agora é uma merda. Mas agora é tarde demais. Aproveitem!"

Prefiro que digam isso. É mais honesto.

"Bom filme" não dá.

Pronto, falei.

e Boa noite.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Despertei

Ei....
Ei...
Acorda!
Acordei.

Estou de volta.
Voltei.
Voltei às letras.
Ou elas que voltaram a mim?

Por um ano,
que mistério, exato um ano,
hibernei.

Invernei.
Mas agora, verão.
Verão que despertei.

Primavera, irmã amanda, mãe marina, pai betão.
Ao blog retornei.

Outono.
Idéias caíram secas como folhas vermelhas.
Adornaram o chão.
Agora, idéias frutificam,
idéias florificam,
nos galhos da cabeça.

Que venham beijas
beijar as flores
trazer idéias pra cá,
levar idéias pra lá

Estou de volta,
não quero parar,
me dá prazer
prazer me dá,
quem vem visitar.

Sejam bem-vindos.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

25 de fevereiro


1 mês sem postar no blog.

Ando sem palavras para entender a vida.

Quanto mais, para tentar explicá-la.

Sempre tive minhas teorias.

Das mais ousadas, querendo desvendar as galáxias, às mais reles, elaborando sobre o uso de um guardanapo.

Mas ando sem repertório. Sem verbo.

Sem idéias, sem hipóteses.

A vida segue um curso por demais indecifrável.

Há uma estiagem de vocabulário no ar.




Na verdade, meus amigos, este blog tem sido atualizado sim.

Dia a dia.

E, como sempre foi, continua revelando coisas pessoais, do meu estado de espírito.

Estou todo aqui.

Só que, neste último mês, escrevi ao contrário.

Cada dia sem post foi o retrato fiel de um cotidiano sem suposições, sem conjecturas.

De uma vida que se vive, mas não se explica.

Cujas emoções, euforias e desventuras arrebatam, sem permitir comentários.

Como curtir a taquicardia de surfar grandes ondas e levar caldos estrondosos em seguida.

Não há tempo pra pensar. Nem pra versar.

Só para esperar a próxima surpresa do mar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A rede da verdade

As tribos primitivas tuitavam.

Sabia?

Nem eu.

Este pensamento me desabou hoje, imprevisível.

Minha conclusão surgiu enquanto lia uma manchete de jornal.

Dizia assim: "Tuiteiros não avisam mais, apenas, sobre a Lei Seca. Alertam sobre blitz de polícia, alagamentos e acidentes de trânsito".

Me ocorreu o seguinte:

Neste mundo de canalhas, calhordas, falsos e egoístas egocêntricos, quem garante que os tuiteiros falam, sempre, a verdade?

Quando postam, em 140 caracteres, "Não passe pelo Aterro do Flamengo: Lei Seca na área!" - quem é que garante que não estão de brincadeira com a cara dos demais?

Pois é.

Mas o uso corrente e a vida cotidiana mostram: não estão!

Quase a totalidade das informações que circulam na twitter-net sobre blitzes da Lei Seca são verídicas. São, de fato, um alerta verdadeiro e solidário (ainda que eticamente discutível).

Algum código velado permeia as relações no twitter. Por alguma razão, ninguém ousa quebrar as regras da troca de informações sobre as investidas policiais contra os bebuns do volante.

E isto se dá numa sociedade de cidadãos isolados, autocentrados, onde a confiança é um artigo raro.

Na falta de argumentos lógicos para explicar tamanha contradição, me lembrei das tribos antigas, nômades, que vagavam em bandos pelo planeta Terra.

Naquelas civilizações, sem escrita, falar a verdade era fundamental.

Mentir era suicidar-se.

Dizer a verdade era a única forma de passar adiante a própria história. A tradição oral era a relíquia mais preciosa.

Toda a sabedoria, todo o aprendizado de séculos eram transmitidos de forma verbal e vocal.

Mentir seria jogar fora toda a experiência dos antepassados. Muitos pagaram com a própria vida para aprender a evitar precipícios, enfrentar animais selvagens, curar doenças.
.
A verdade era a garantia de que nada seria perdido.

A verdade era a autopreservação, o respeito à própria cultura e às origens. A verdade, já naquela época, era a pureza. Era o símbolo imaculado de uma realidade em que se podia confiar.

Por alguma razão, um instinto de sobrevivência resiste também entre os tuiteiros, unidos para desmantelar a rede anti-imprudência ao volante.

Por isso, disse antes.

As tribos primitivas, muito antes da nossa moderníssima civilização, já tuitavam.
.
Tuitavam de verdade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Explicando

Como reagiu o primeiro homo-sapiens

quando ouviu o trovão pela primeira vez?


Quando viu irradiar pelas nuvens negras da noite

inéditos braços de relâmpago, em todas as direções?


Será que teve medo e correu pra caverna?

Ou teve uma divina inspiração?


Teve certeza de que estava vendo Deus?

De tão poderosa, barulhenta e sobre-humana a manifestação?


Certeza, esta, que o homem perdeu,

quando se achou capaz de tudo explicar.


Nuvens se chocam, carregadas de elétrons,

se esfregam e explodem em ruído trovejante.


Pronto, tá explicado. Tudo desvendado.


Sabemos como a coisa funciona, nos detalhes mais invisíveis,

e todos ficam felizes, satisfeitos.


Esquecem-se de perguntar a questão mais essencial:

quem colocou essas nuvens lá pela primeira vez?


Científica ironia:

revelar os mecanismos da natureza,

deixou, na realidade, o homem mais longe da verdade.


Deveriam aprender com aquele homem-macaco,

pré-histórico e pouco evoluído.


Bastou ver a explosão de luz e som

e não teve dúvidas:

É Deus.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Semanas

Semanas

seguem de mãos dadas

rumo ao futuro que deixa tudo pra trás.



O fim de cada uma

faz brotar o gosto pela próxima;

que será que virá?



Elas premanecem,

acorrentadas,

em uniforme compasso.



A cadência da caminhada

não deixa dúvida:

o que vem é igual a o que foi.



Rotina, semelhança,

e eu parado, de carona,

no ritmo da andança.



Nada muda,

eu não mudo,

exceto o passado que vai ficando mais pra trás.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sem piloto

A vida é o seguinte:

Você entra, senta e bate a porta.

O carro viaja sozinho, sem piloto.


O passageiro pode até escolher algumas coisas:

vai no banco da frente,

vai no de trás?

Fecha os olhos,

põe o capacete e aperta o cinto,

ou abre o teto solar,

põe a cabeça pra fora

e grita?


Enche a cara antes da viagem,

pra ver se dá mais emoção,

ou fica sóbrio, atento ao caminho,

para não ser pego de supetão?


Escolhas,

há muitas,

menos a direção das curvas,

a velocidade,

e o caminho a seguir.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pistola e camisinha

Que as aparências podem enganar, nós sabemos.

Mas é incrível como, algumas vezes, o raciocínio lógico nos deixa tão distantes da verdade.

No livro O gosto da guerra do jornalista José Hamilton Ribeiro, um correspondente no Vietnã que, inclusive, perdeu a perna ao pisar numa mina, há um trecho bem interessante:

Ele conta o seguinte. Todo soldado e todo jornalista deveriam sair de seus abrigos rumo aos perigos da selva, impreterivelmente, portando dois ítens.

Uma camisinha e uma pistola.

Pra que esses dois objetos? Pensamos, é lógico, para fins sexuais e para matar o inimigo.

Algo normal numa guerra, não é?

Quem chegou à mesma conclusão, saiba logo: está redondamente enganado!

A arma não é para apontar para os outros, e sim para tirar a própria vida no caso de ser capturado pelo inimigo. O suicídio parecia uma saída mais digna do que sofrer torturas nas mãos dos vietcongues.

E o preservativo? Nada de sexo.

Era para levar cigarros, fósforos e documentos nos bolsos sem deixá-los molhar nos pântanos e nas chuvas. Protegidos pelo látex, ficavam intactos.

A certeza absoluta pode ser um caminho traiçoeiro.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ 2010!!!

Havia um milhão de pessoas dentro do shopping nesta quinta-feira, 31 de dezembro de 2009.

Turistas do Brasil e do mundo no Rio de Janeiro. A chuva estragou a praia da galera.

E todos infurnados no centro comercial, vizinho da Praia de Copacabana, o maior Reveillon do planeta.

Por coincidência, o tal shopping é, vamos dizer assim, a cozinha da minha casa.

Não ligo o fogão do meu apartamento há 3 anos. Sanduíches caseiros são raríssimos.

Frequento os restaurantes do Shopping todos os dias.

E o que aconteceu hoje? TODAS as opções estavam abarratodas, com filas e números de senha sendo distribuídas!!!

Na loja dos chinelos Havaianas, por exemplo. Sabe o que tinha? Tinha uma corrente segurando a fila do lado de fora, pra não deixar todo mundo entrar ao mesmo tempo!

Cara, você já viu fila pra entrar em uma loja da Havaianas??

Enfim, surrealismo puro!

Exijo que o mesmo esquema adotado para o Reveillon de Copa seja adotado para o Shopping Rio Sul.

As ruas do Bairro são fechadas, ninguém entra de carro ou de táxi!

Exceção, é claro, para os moradores de Copacabana! Claro, eles têm privilégios por residirem no lugar que é visitado por milhões apenas uma vez por ano!

E aí? Cadê a minha carteirinha de habituê dos restaurantes e lanchonetes do Rio Sul!

Quero furar fila, passar na frente!
Gente, vocês fazem comida em casa e tem refeição nos hotéis! Eu não!!!

Termino o ano de 2009 de cara feia, com fome!

Bom presságio para mudanças em 2010!

Feliz ano novo para todo mundo!

Muito obrigado pelas visitas!!!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

1 ano pra frente, 1 ano pra trás

Aperte um botão qualquer do seu computador.

Não importa qual. É apenas um exercício de imaginação.

Transporte-se para este mesmo dia, 30 de dezembro, mas de 2008.

365 dias atrás.

Agora, imagine-se ligando a TV e vendo a chamada para a retrospectiva DESTE ANO, de 2009:

O locutor informa: "Você vai ver os acontecimentos mais marcantes do ano, as imagens, as tragédias, etc..."

E as imagens que aparecem são as seguintes: O Felipe Massa com uma baita cicatriz no olho esquerdo, o funeral do Michael Jackson, o Rio de Janeiro sorteado como sede olímpica, Flamengo hexacampeão brasileiro, avião da Air France espatifado no chão.

Imagina o espanto, o seu espanto, na ignorância de 1 ano atrás, se pudesse ver todas essas imagens do futuro???

O que??? Michael Jackson vai morrer???
Flamengo??? Vai ser campeão brasileiro de pontos corridos???
Rio de Janeiro sede olímpica??? Tá de sacanagem né?
Felipe Massa com o rosto deformado???

Fiquei pensando em como será a chamada para a retrospectiva de 2010.

Se pudéssemos saber dela agora... quantas revelações teríamos, não?

Lúcio levantando a taça do Brasil campeão da Copa de 2010?
Vascão campeão brasileiro na volta à série A?
Obama sofreu um atentado??
Serra celebrando a eleição para presidente do Brasil?
Mísseis nucleares testados pelo Irã?
.
Enfim, que mundo surpreendente o mundo nos reserva.
Em quantas coisas não acreditamos agora... mas serão normais e manjadas daqui a 12 meses?
Que caminhos a vida tem guardados para nós? Para nós, planeta, e para nós, pessoas?

Se você tivesse a chance de dar uma olhadinha na retrospectiva da sua vida daqui a um ano, você espiaria?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal


Na tal data
nos encontramos

Na tal ocasião
ficamos juntos

Fim de ano
lembro
e desejo

desenlaço
surpresas

desembrulho
tristezas

dezembro
esperanças

Jesus
é menino
como a vida
que habita em mim

Nesta data
na tal data
Seja feliz

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Definição: an.gús.tia - sf (lat angustia)

Angústia,

sensação que se esconde lá dentro.

Camuflada, não revela aos outros

sua verdadeira intensidade.


Para que fosse notada,

reconhecida, percebida pelos demais,

e com força semelhante à dor real,

precisaria nascer de uma cena grotesca:


A mão rompe peito adentro,

atropela as costelas, rasga o coração,

alcança as vísceras e as esmaga entre os dedos,

um líquido viscoso explode e escorre pelo braço.


Por dentro, no eco da caixa toráxica

uma tocha acesa, incandescente.

Pelas vias aéreas, um veneno gasoso na respiração,

que queima a cada suspiro.


No estômago, insere-se um bloco de chumbo

denso, pesado, grande o suficiente,

para permitir um trânsito mínimo

do bolo alimentar.


Ah, é claro,

tudo isso com a pessoa bem viva,

acordada, lúcida e consciente.

Pois angústia só se sente

quando não se sabe a hora de acabar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Corolário


Qualquer coisa que tenha pretensão literária deve, necessariamente, ter 141 caracteres ou mais.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nada a dizer

Só pra registrar,

só pra relatar,

gostaria de acrescentar...


Escrever é força.

Gravar o pensamento.

Lavrar em pedra a sensação.


Hm, tenho a impressão...

Quero dizer, preciso falar,

tenho que me expressar!


Chegou a hora das palavras,

tenho muito a imaginar,

a contar, a declarar.


Escrever.

Pura explosão, puro poder.

Faz existir,
.
mesmo quando não se tem nada a dizer.